quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Elmo e as pessoas


Um dos professores que moldaram a pessoa que sou hoje e de quem guardo uma lembranca muito querida chamava-se Marcel. Não é erro de digitação, não. Marcel, mesmo, não era Marcelo. Lembra da Alice, minha professora que não vinha do país das maravilhas? Então. Marcel também era professor de Português, mas veio antes da Alice. Eu cursava a 5a. série e tinha dez anos.
Além do nome curioso, presença marcante e bom humor, Marcel tinha uma peculiaridade: referia a si mesmo na terceira pessoa. Sempre. Dizia: “Marcel vai fazer isso... Marcel vai fazer aquilo.”
No comeco achava engraçado, presumindo que Marcel fazia aquilo de propósito, de brincadeira. Mas com o tempo precebi que não. Marcel realmente dirigia-se a sua pessoa pelo nome que lhe deram.
Depois de Marcel, encontrei em minha vida poucas pessoas com o mesmo hábito e me perguntava o porquê. Gostavam assim tanto de seus próprios nomes ou havia algo de mais complexo por trás desta atitude? Teriam por acaso elas algum problema de identidade, dupla personalidade ou o quê? Será que todas possuiam baixa estima ou, ao contrário, egos superexcitados que lhes permitiam especial referência?
Foi quando me deparei com um ótimo texto de Moacyr Scliar: “Nós, o pistoleiro, não devemos ter piedade”. Nele, o narrador refere-se a si mesmo na 1a. pessoa do plural! Ainda mais intrigante. Descobri que muitos linguistas estudam este tipo de discurso e alguns o chamam de referenciação. Mas depois de ler, procurar e tentar analisar sozinha, acabei desistindo de entender e admiti que não sabia nada mesmo! No final das contas, não fazia a menor diferença, pois o que interessava é que Marcel, por exemplo, era o que era porque era e pronto!
Muitos anos mais tarde, eu, agora mãe de uma menininha muito curiosa, que tenta entender e diferenciar duas línguas totalmente distintas, enquanto aprende a se comunicar, fui apresentada a um boneco-marionete muito popular nos EUA chamado Elmo. Não é que o tal conversa com as crianças sem jamais usar a 1a pessoa?
Pronto!
E dia desses, chamando a atencão da tal menininha de nome bem brasileiro (tupiniquim mesmo!) na terra do tio Sam (tio de quem?), reparei, surpresa, que havia algo de Marcel em mim:
- Mamãe não gosta quando você faz isso!
E ela disse:
-Mamãe Carla!
Carla é uma boba ou não é?

2 comentários:

Eu disse...

Boba não, Carla escreve muito bem, isso sim!
:)
Adorei o texto, o Marcel e tudo.
beijos
Ana

cArLa disse...

Ana! Que bom receber sua visita!!!
Obrigada!