terça-feira, 18 de agosto de 2009

hora de voltar




Juan atravessou o estacionamento a passos largos. Era a primeira vez que recorria ao ato desesperado de juntar-se ao grupo de mexicanos que diariamente encontrava-se nas imediações daquela grande loja de materiais de construção na frágil esperança de conseguir um emprego por um dia ou mesmo por algumas horas.
Embora aparentasse displicência no jeito de andar, sua revolta íntima não escaparia a um bom observador. Só ele sabia quantos sacrifícios havia feito desde o dia em que deixara Guadalajara até aquele exato momento. Tudo em vão.
__Juan! Juan! Ya está. Ven aquí.
Tarde demais para voltar atrás. Emílio, seu amigo de travessia, chamava-o para junto do grupo reunido a uma certa distância. Ele certamente faria alguma piada a respeito de sua presença ali. Juan entenderia. Muitas vezes gabara-se de sua educação e posição em sua cidade natal. Repetira inúmeras vezes que se pagara um coiote para atravessar a fronteira o fizera tão somente para se aventurar pela América onde, certamente, encontraria trabalho fácil. Seu plano era simples: trabalhar e voltar ao México dentro de um ano com os bolsos lotados de dólares para começar a vida.
Quatro anos e meio depois, lá estava Juan: sem dinheiro, sem trabalho, sem documento, sem previsão de quando voltar. Descobrira rapidamente que de nada lhe valia seu diploma de Engenheiro Civil pela Universidade Jesuíta de Guadalajara. Ali ele não era ninguém. Ali era apenas mexicano; um imigrante de algum país de língua espanhola; uma mera estatística.
Fazia muito frio naquela manhã e assim que se juntou aos homens os quais, vestindo casacos, luvas e toucas, conversavam animadamente entre si, recebeu de Emílio um copo de papel com café fresco. Trocou poucas palavras com alguns deles e limitou-se a escutar o que diziam. Causava-lhe grande desconforto aquela situação. Talvez porque finalmente entendera o quão erroneamente havia alimentado a ilusão de possuir uma certa vantagem em relação àqueles homens rudes e simples. Desde sua chegada aos Estados Unidos ele próprio fora vítima do mesmo vilão que separa os homens de carne e osso dos demais: o sentimento de superioridade. Ele, que havia aprendido inglês em cursos particulares, pagos com sacrifício pelo pai professor, percebeu, para seu espanto, que sua fisionomia e sotaque fechariam todas as portas diante de si naquele país, e que sua inteligência, conhecimento ou habilidades pouco interessariam aos empregadores. Relembrou alguns de seus trabalhos com pesar. Jamais fora tratado com respeito e sequer fora capaz de juntar dinheiro. Muitas vezes desejou voltar ao seu país. Mas o orgulho falara mais alto. Como voltar de mãos abanando depois de tantas promessas?
Ao avistarem a primeira grande “pick up”, alguns dos homens ensaiaram aproximação. Nada. Esse ritual se repetiu algumas vezes antes do almoço sem sucesso. Enquanto dividia seu sanduíche com Juan, Emílio contava a todos em detalhe seu acidente de trânsito que quase o levara a ser descoberto pela imigração semanas atrás. Juan a tudo ouvia sem interesse. Observava os calos das mãos e pensava na ironia daquela hora. Sonhara um dia projetar pontes e edifícios, no entanto, tudo que desejava agora era conseguir um emprego de pedreiro por um dia que garantisse alimento para o mês. O que diriam seus pais se o vissem assim?
Conhecera uma americana há uns dois anos atrás disposta a casar no papel mediante certa quantia da qual ele não dispunha na época. Chegara a acreditar ser esta sua salvação. O casamento de fachada possibilitaria documentação legal, pensara. Mas há muito resolvera desistir de tal intento. O processo, além de lento e custoso, não era garantido.
Súbito, dois homens altos se aproximaram do grupo que, desconfiado, procurou se dispersar. O mais jovem deles tratou de explicar que precisavam de homens fortes para um trabalho pesado. Corte de madeira. Ansiosos, muitos deles, entre os quais encontrava-se Emílio, apressaram-se em se apresentar para o trabalho que surgia milagrosamente no meio do dia. Juan ensaiou algumas palavras, mas os dois homens rapidamente escolheram dez do grupo que os acompanharam em duas mini-vans sem que sua pessoa fosse sequer notada. Resignado, acendeu seu último cigarro e voltou para o quarto que alugava perto dali.
Semanas mais tarde, ainda sem notícias de Emílio e os outros compatriotas, Juan buscava anúncios nos jornais locais quando fora tragado por imensa onda de pavor ao ler uma pequena nota a respeito de dez homens não identificados encontrados mortos, todos baleados na nuca, em área remota destinada a reflorestamento. O jornal mencionava vagamente a origem hispânica dos dez homens e a “dificuldade” da polícia em iniciar as investigações. Um suor frio escorreu pela testa cansada de Juan.
Era hora de voltar para casa.




Despedida - Roberto Carlos

3 comentários:

Romanzeira disse...

Tanta gente que se deixa levar pela ilusão de fazer dinheiro fácilmente nas terras do "Tio Sam". Mal sabem que é um tremendo engano. Quando penso nessas pessoas, brasileiros ou hispânicos, que vão para os EUA tentar "fazer a vida", imagino-as exatamente como o Juan: sozinhas no meio do nada (embora estejam em grandes cidades), sem conhecer ninguém, sem saber falar a outra lingua direiro, sentido-se perseguidos pela imigração a qualquer olhar diferente em sua direção, o medo de ser preso ou sofre outro tipo de violencia. É uma loucura ir para outro país ilegalmente. Vc conseguiu captar o medo e a angustia do imigrante ilegal.

O conto tem bom ritmo e um desfecho terrivel e sombrio. Muito bom, to arrepiada.

bj.

Juliêta Barbosa disse...

Carlinha,

Saudades de você, menina! E, que conto! Tão real e aterrador. Sofri na pele todo o drama de Juan... Parabéns!

C. S. Muhammad disse...

Oi, Vivi! Obrigada pelo comentário. Eu escrevi este continho baseada numa história verdadeira que ouvi de uma amiga. Juan era para ser um dos homens assassinados, mas acabou sendo salvo e ajudou a contar certas particularidades que eu vejo aqui: gente que vem com sonhos que jamais se realizam, uns que mesmo com diploma são tratados com desprezo e outros que casam "de mentirinha" para arrumar green card. Quando trabalhei de intérprete, vi outros serem pegos por se envolverem em acidentes de trânsito ou vilência doméstica.
Bjs.

Juliêta,
Saudades tb. Obrigada pela visita!
bjs