quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Mocinhos e Bandidos


Toda vez que vasculho a memória em busca de porquês, esbarro em algum professor. Se é verdade que toda criança fantasia heróis e mocinhos, os meus foram os professores que tive ao longo da vida. Por isto este tema insistente em minha vida. Não tinha mesmo outro jeito: eu quis e escolhi ser um deles. Não foi por acaso.
Queria ser tão querida e amiga quanto o Nicolau, tão adorada e ao mesmo tempo tão temida quanto Alice, tão engraçada quanto… - vários deles -, tão enigmática e carismática quanto Jatobá, etc, etc… Queria ser a mocinha.
De uns tempos para cá venho pensando nos “bandidos”. Afinal, todo mundo, em alguma época da vida, ou várias, também dá de cara com um professor carrasco, daqueles que se assemelham ao “tutu marambá” em cima do telhado. Atormentam a vida e até o sono da gente. Pô, implicam com tudo! Nada está bom para eles. Suas aulas são sessões de tortura. Parece até que a gente está de castigo. E as provas? Só colando. E olha que se colar eles sabem! Professor bandido sente cheiro de trapaça de longe.
Perambulei pelo velho oeste desta memória e me lembrei de um dos maiores vilões do meu passado de estudante dedicada. Ele era John Wayne. Eu era a Pocahontas. Sempre achei que bang-bang que se preze deveria mostrar o índio americano com o mocinho, não o contrário. Por isso eu era a índia. Inocente e indefesa contra o homem branco.
Mas vou chamá-lo aqui de Jerônimo. Nome de índio, mesmo. Então. Jerônimo inspirava terror porque era ambíguo. Bipolar. Fazia gracinhas aqui e dava alfinetadas ali. Nunca dava para saber se Jerônimo estava brincando ou sendo irônico. Se ríamos de suas piadinhas, ele se zangava. Se não ríssemos, também. Sempre distribuía “foras” a torto e a direito, bastava que lhe dessem chance. Mas se a turma não se manifestasse durante a aula, ele procurava alguém para “Cristo”, e aí o pobre diabo passava o resto do dia sendo motivo de chacota.
Tudo isso bastaria para que eu tivesse pavor de Jerônimo, mas não! Tinha que ser pior, dizia a lei de Murphy. Jerônimo tinha que ser professor de contabilidade! Nem a ciência dele era humana.
Por tudo isso, eu sofria por antecipação ao pensar em suas aulas. Decidi que me sentaria no fundo da sua classe sempre! Assim estaria a salvo do seu olhar acusador.
Certa vez, Jerônimo demorou a entrar pela porta. Os minutos se passavam e ele não aparecia. A turma toda deu largas à satisfação de imaginar que Jerônimo, pela primeira vez, havia faltado. Alguns dançavam a dança da chuva, outros corriam pela sala, em seus alazões, sentindo-se livres. Mas eu não. Eu permanecia sentada, sozinha, encostada na parede do fundo. Eu temia.
Foi quando Jerônimo abriu a porta. Silêncio mortal na sala da 8a série. Seu olhar maligno percorreu a sala inteira e parou no meu.
“Você aí!”, gritou apontando para mim. “Saia da sala!”
Senti um frio percorrer minha espinha de cima abaixo. Senti todos os olhares em cima de mim. Senti as lágrimas brotando. Mas não tive coragem de dizer nada. Como poderia argumentar com o próprio bicho-papão em pessoa? Levantei-me silenciosamente e sai.
Já no corredor, ainda em choque e tremendo mais que vara verde, me dei conta de que, se alguns dos inspetores me visse ali, eu seria mandada para detenção, lugar de todos os índios expulsos da sala de aula no meio do dia. Eu vivia o pior pesadelo da minha vida de mocinha. Era o ápice.
De repente ouvi alguém me chamar. Era o inspetor do corredor. As lágrimas insistiram em cair e eu me deixei levar a um canto. Foi quando ele me explicou que o professor de contabilidade havia me liberado para ir para casa. Eu ia chorar e implorar, mas ele disse que a turma toda ficaria na detenção, menos eu. Como assim? Todos estavam de castigo, menos eu. Por isso ele me mandou sair da sala.
Nunca mais eu acreditei em tutu marambá. Nem em John Wayne. Virei índia guerreira, de arco e flecha.
Alguns poucos anos depois, vi Jerônimo anônimo, na hora do hush, em pé, no mesmo ponto de ônibus que eu. Tive medo que ele me reconhecesse e por isso nada disse. Um ônibus, já lotado, parou de súbito, e, contrariando as leis de gravidade e de impenetrabilidade, Jerônimo saltou na porta de trás, confiante. Vi o ônibus se afastar com a porta aberta, levando Jerônimo dependurado, qual surfista de trem, e senti ímpetos de correr e gritar para que parasse.
Senti as lágrimas brotarem novamente. Então era assim que um professor era tratado no meu país. Jerônimo era o mocinho o tempo inteiro e eu não sabia. Eu não sabia.
Na gaveta das respostas, Jerônimo está lá. Não tinha mesmo outro jeito: eu quis e escolhi ser professora. Não foi por acaso.

5 comentários:

Viviane Mag disse...

Oi CArla,

Realmente, ser professor nessa terra é uma coisa difícil, cada vez mais difícil, mas vamos levando.
Gostei o texto. Me fez lembrar alguns professores que tive que no início também achei que eram bandidos, mas com o tempo precebi que eram os mocinhos. Muito bom.

cArLa disse...

Viviane,
eu nunca mais me esqueci daquela imagem. Foi algo tão triste de se ver. Eu não comentei uma particularidade daquele professor: ele andava sempre de terno. O mesmo terno azul claro. Foi com este terno que o vi ser levado depedndurado naquele ônibus. Como nunca mais o vi, é assim que me lembro dele e sei que não existem bandidos nesta ingrata profissão.
Beijo

Juliêta Barbosa disse...

Carla,
Ser professora nesse país é um sacerdócio! Que bom que você escolheu esta profissão. É a maior prova da beleza da sua alma. Ensinar é aprender junto e são poucos os que se propõem a tal exercício. A vaidade e o ego inflamado não permitem... E conhecimento que não é partilhado, não existe.Belo texto!

cArLa disse...

Oi, Juilêta!
Nunca entendi porque esta profissão tão fundamental é tratada com tanto descaso. Sou muito grata a todos os professores que passaram pela minha vida.
Obrigada!

Sonia disse...

Obrigada! Sinto-me orgulhosa em ser sua mãe. Amei o texto, como tantos outros que conheço, escritos por vc. Parabéns também, pois conheço o seu trabalho e dedicação!