sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Frio


Exatamente às 6 horas, como em todos os outros dias, o despertador tocou. Meus olhos se esforçaram para abrir. Minha mãe, já de pé, chamou-me delicadamente, ignorando que o maldito relógio possivelmente despertara – com seu som estridente – a mim e a todo o prédio.
“Deveria ser proibido acordar tão cedo durante o inverno nesta cidade”, pensei. Inevitavelmente o choque térmico entre o corpo quentinho sob o cobertor e o frio branco do banheiro acordou-me de vez. Munida de uma força sobre-humana me despi e, antes de congelar, abri o chuveiro, cuja água – quase fervendo – agredia minha pele.
Devidamente vestida com o uniforme do colégio – o qual escondia duas blusas, uma fina calça de lã e três meias – sentei-me à mesa para tomar o café com torradas à minha espera.
“Preciso de umas luvas”. Beijei o rosto quente e amoroso de minha mãe automaticamente. E automaticamente peguei minha mochila, encarando sem estímulo o frio da rua.
Sem dúvida fora uma das noites mais frias daquele ano. Ainda que não houvesse chovido, o ar estava úmido e o chão molhado. Procurei caminhar a passos largos e rápidos em direção à escola, que ficava a alguns metros de casa. Tinha o intuito de aquecer-me. A rua, pouco movimentada, parecia particularmente ainda mais gelada e mais longa. Sentia minha boca rachar e meu nariz doer.
Como que para encurtar a distância, passei a me entreter, soltando ar quente pela boca e provocando um vaporzinho à minha frente.
A uma certa altura, deparei-me com uma figura encolhida, sentada à porta de um restaurante famoso da cidade. Suas roupas eram escuras. Uma onda de medo passou repentinamente pelo meu corpo tão protegido. Entretanto, diminuí a velocidade do meu caminhar.
Intrigou-me não poder ver os olhos daquela pessoa, pois sua cabeça pendia sobre suas pernas. Se pudesse, seu olhar certamente me diria o porquê de estar naquela hora num lugar tão cruelmente frio. Ao passar por tal figura, analisei rapidamente suas mãos, à mostra: tinham uma cor indescritível. Fechei os olhos por um instante, recordando a silhueta que, agora, havia ficado para trás. Parecia imóvel.
Algo em mim pedia-me que voltasse, mas o frio, mais forte, mandava-me continuar meu caminho.
Já em sala a triste figura havia fugido de minha mente, e eu só pensava o quão frias eram a sala, as carteiras; o quão frio era o meu professor Durante o recreio, uma pequena parte da imensa quadra de esportes fora – com em todas aquelas manhãs de inverno – agraciada com alguns raios do sol que discretamente aparecia. Nada de jogos, correrias ou gritos. Todos procurávamos nos espremer solidária e pacificamente no “cantinho do sol”, como o chamávamos.
*****
Os alunos, em êxtase, aglomeraram-se na saída da escola, num breve calor humano. Desci a rua em direção à minha casa.
Com o coração aos saltos, vi à minha frente uma multidão que assistia de modo frio e absorto a uma cena qualquer. Qualquer? Sem perceber passei a andar mais depressa. A multidão e o que parecia ser uma ambulância permaneciam em frente ao restaurante famoso. Imediatamente a figura congelada em meu pensamento voltou a intrigar-me.
Quando finalmente me aproximei – entre confusão e desespero – não encontrei o que temia ver.
_O que aconteceu? – perguntei tremendo a uma senhora ao lado.
_Mas uma vítima desse frio horroroso. Já recolheram o corpo.-respondeu com frieza.
Meu rosto e mãos estavam em brasas. Meu corpo e minha alma queimavam. Queimam.
Eu só me lembrava da indefinível cor da pele daquela figura cujo rosto eu jamais vi, mas que me assombra em todos os intermináveis invernos da minha vida.

2 comentários:

O Argonauta disse...

Fiquei emocionado. Seu texto é de uma sensibilidade ímpar!

Beijos tropicais.

cArLa disse...

Este fato aconteceu mesmo comigo em Petrópolis. Eu também me emociono sempre que me lembro.