quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Moinho


Abriu os olhos devagar. A cortina de linho deixava entrar em seu quarto os primeiros raios de sol daquele dia frio de outono. O silêncio era absoluto, e embora a janela estivesse fechada, podia quase ouvir o vento tocando uma melodia harmoniosa, interpretada apenas pelo bailar das folhas que ao caírem cobriam inteiramente o chão, criando um tapete multicolorido na frente da casa.
Era a primeira vez que acordara antes do despertador.Talvez porque sequer havia dormido. Os pensamentos eram muitos e a mente se recusara a calar durante a noite, enquanto o corpo tentava em vão repousar. Não eram os outros que ela temia.Temia a si mesma. Temia a própria censura, a própria reprovação. Nada possuía, além da consciência.
Teve ímpetos de permanecer na cama até que a culpa se fosse de vez, mas era inútil ignorá-la. Talvez não dessem falta dela. O mundo estava muito ocupado naquela manhã que as futuras gerações chamariam histórica. O império em crise havia escolhido seu 43o presidente no dia anterior. Não sabia prever o futuro, mas sentia que o sonho do Dr. King era diferente. Seu sonho não era em preto e branco, mas colorido, tal qual as folhas que insistiam em cair. Cada cor possuía igual importância naquela bonita aquarela criada pela natureza.
Enfim levantou-se e sentiu o chão frio. Suspirou e inspirou a saudade do cheiro do café forte coado na hora. Decidiu-se: cavara o abismo. Restava-lhe encará-lo.

Um comentário:

O Argonauta disse...

Belo texto!Os ecos da festa chegam aqui nesta parte sul do continente, aonde - pelo menos por enquanto - as cores se misturam. Mas nesta hora, o "diabinho" anti-Polyana murmura em meus ouvidos as palavras de Tancredi, personagem de "O Leopardo", do Lampedusa:"é preciso que as coisas mudem para que permaneçam como estão". Beijos com saudades da minha revisora favorita.