quarta-feira, 17 de junho de 2009

Cor-de-rosa


[Trecho]
Segundos após o soar do sino da saída, os corredores da escola foram completamente tomados pelas crianças sadias que corriam felizes e barulhentas ao encontro dos pais que já as aguardavam nos portões.
Luiza estava mais ansiosa que o normal naquela tarde e isso era possível perceber no seu gesto nervoso de chacoalhar as chaves do carro. De onde estava podia observar os grupos de mães que conversavam entre si, muito animadas, com seus belos cabelos escovados, suas roupas de grifes famosas, suas bolsas caras, conversando sobre suas vidas interessantes, seus problemas água-com-açúcar, seus esposos bem sucedidos e seus filhos hiperativos. Ela também já desejara aquela redoma de vidro, aquela peneira tapando o sol. Admitia sem vergonha que sonhara secretamente com aquela vida clichê e cor-de-rosa, a qual ignorava o sofrimento alheio, que fingia desconhecer as dores que assolam o resto da humanidade, os problemas sociais, o caos urbano e a política, para se dedicar exclusivamente ao marido e aos filhos. Também ela sonhara com a vida dos romances para moças,com as juras de amor, com o casamento perfeito, os jantares à luz de vela, o amor que dura a vida inteira.
Arriscaria dizer que, caso não tivesse sido tragada pela realidade há seis anos atrás, talvez até fizesse agora parte daquele grupo de jovens senhoras risonhas que evidentemente interpretava de forma elegante seu papel na sociedade. Riu de seu próprio sarcasmo e aprumou-se, voltando sua atenção para a porta da escola. Juliana não tardaria a aparecer.
Reconheceu então a figura da filha tão caprichosamente penteada, segurando a mão de uma amiguinha com quem conversava alegre, enquanto, ao contrário das outras crianças, caminhava calmamente em direção ao pátio. Ao vê-la, Juliana despediu-se da amiga com um abraço e só então precipitou-se a correr em sua direção.
Ela havia esperado por aquele abraço de criança durante todo o casamento. Planejara tudo como era de seu costume: escolheu nomes, calculou seus dias férteis e até a data aproximada do nascimento do bebê que haveria de coroar seu feliz matrimônio. Preparou seu próprio chá de bebê, decorou o quartinho com amor e requinte e escolheu com carinho cada peça do enxoval. Juliana fora muito esperada. O que veio depois dela não.
Perguntou-lhe como havia sido seu dia e, levando-a nos braços, ouviu com atenção cada detalhe do seu relatório infantil, beijando-lhe as faces rosadas entre uma história e outra até alcançarem o carro. Era sexta-feira, e Juliana passaria o sábado com o pai, como o combinado. André, apesar de tudo, estava presente na vida da filha.
Antes de irem para casa, deram um pulo na farmácia do bairro. Precisava da cura para sua ansiedade e teria o sábado todo para tratá-la. Além disso, queria saber a resposta antes de seu rápido encontro com o ex-marido.
Já na entrada do estabelecimento, Luiza percebeu alguns olhares curiosos, com os quais há muito se habituara. Ignorou-os como sempre e ainda segurando a mãozinha da filha interpelou o farmacêutico sem constrangimento quanto aos testes de gravidez. Pousou os olhos num dos kits por longo tempo, perguntando-se como deixara aquilo acontecer. No fundo, sabia que não necessitava daquele teste. Tinha absoluta certeza de que carregava um filho de André e isso causava-lhe imenso pavor. Passou a mão pelos cabelos de Juliana e pela primeira vez teve medo.
Por fim decidiu levar o teste e enquanto pagava por ele ouviu um riso solto de criança.
__ Olha, mamãe – disse divertido um garoto, apontando para Juliana. Que menina engraçada.
__ Não ria, meu filho. – respondeu a mãe. Não vê que a menina é doente?
__ Ela não é doente. – replicou Luiza com voz firme. Ela nasceu com Síndrome de Down.
E saiu da farmácia com Juliana sem olhar para trás.


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6 comentários:

Nina disse...

Puxa Carlinha, é isso mesmo, as pessoas ainda olham pra essas criancas como se elas tivessem um grande problema...

ainda acho estranho, mas é um fato que as maes dessas criancas tem um fardo maior a carregar, nao pelo seus filhos, mas com a sociedade que continua falsa e julga sem se informar.

Bjs

LUARES DE LILITH disse...

Olá Carla,

Agradeço as suas palavras e retribuo a visita.

Lindos os teus textos. Admiro quem escreve assim, não sei se eu conseguiria.

Por mais que falem em inclusão, ainda é só verbo. Ainda é pouco. Pesam sobre as mães as preocupações sobre o futuro, as preocupações triviais, o driblar das situações que a sociedade impõe sem sentir a saia justa, sem sentir o quanto é injusta. Díficil o papel de mães que dão à luz a filhos assim.

Um grande beijo encantado com o seu trabalho!

Lu

Romanzeira disse...

Olha, tenho que tomar coidado quando entro neste blog e estou em dias de sensibilidade aflorada. Quase chorei terminando de ler o texto.
O legal em seus contos e cronicas é que eles vão crecendo a medida que a historia se desenrola.
Muito bonito.
bj.

Kika disse...

Pois eu me emocionei com esse texto.
Talvez, porque esteja carregando um rebento na barriga - ups, contei um segredo.
Aliás, seu último comentário lá no meu blog foi tão lindo, que tive vontade de contar outro:
http://www.embuchada.blogspot.com/
beijos querida!

Juliêta Barbosa disse...

Carla, minha querida, o pior é que o preconceito é maior na própria família. Camuflado, mas existe! Pais que evitam expor os filhos, não para protegê-los,e sim, porque não suportam o peso do julgamento alheio...É como se aquela criança fosse um atestado da sua incompetência. Pobres pais, perdem uma boa oportunidade de exercer o amor na sua maior expressão.Que bom seus textos, eles nos levam a reflexão.

C. S. Muhammad disse...

Nina,
Não há nada pior do que ignorância... e não há nada maior do que a compaixão.
Bjs

Luares,
Obrigada pela delicadeza.

Viviane,
Ai, perdão! Obrigada pelas gentis palavras.

Ana,
Menina!!!! que felicidade!!!! Mil parabéns... Que segredo maravilhoso!

Juliêta,
Estava sentindo sua falta!
Sabe que conheço este tipo de família, que sente vergonha da criança? Mais triste que o preconceito dos estranhos.
Bjs