domingo, 25 de outubro de 2009

Fadado

Aníbal Nazaré e Nelson de Barros: "Fado Falado"


Fado Triste
Fado negro das vielas
Onde a noite quando passa
Leva mais tempo a passar
Ouve-se a voz
Voz inspirada de uma raça
Que mundo em fora nos levou
Pelo azul do mar
Se o fado se canta e chora
Também se pode falar

Mãos doloridas na guitarra
que desgarra dor bizarra
Mãos insofridas, mãos plangentes
Mãos frementes e impacientes
Mãos desoladas e sombrias
Desgraçadas, doentias
Quando à traição, ciume e morte
E um coração a bater forte

Uma história bem singela
Bairro antigo, uma viela
Um marinheiro gingão
E a Emília cigarreira
Que ainda tinha mais virtude
Que a própria Rosa Maria
Em dia de procissão
Da Senhora da Saúde

Os beijos que ele lhe dava
Trazia-os ele de longe
Trazia-os ele do mar
Eram bravios e salgados
E ao regressar à tardinha
O mulherio tagarela
De todo o bairro de Alfama
Cochichava em segredinho
Que os sapatos dele e dela
Dormiam muito juntinhos
Debaixo da mesma cama

Pela janela da Emília
Entrava a lua
E a guitarra
À esquina de uma rua gemia,
Dolente a soluçar.
E lá em casa:

Mãos amorosas na guitarra
Que desgarra dor bizarra
Mãos frementes de desejo
Impacientes como um beijo
Mãos de fado, de pecado
A guitarra a afagar
Como um corpo de mulher
Para o despir e para o beijar

Mas um dia,
Mas um dia santo Deus, ele não veio
Ela espera olhando a lua, meu Deus
Que sofrer aquele
O luar bate nas casas
O luar bate na rua
Mas não marca a sombra dele
Procurou como doida
E ao voltar da esquina
Viu ele acompanhado
Com outra ao lado, de braço dado
Gingão, feliz, levião
Um ar fadista e bizarro
Um cravo atrás da orelha
E preso à boca vermelha
O que resta de um cigarro
Lume e cinza na viela,
Ela vê, que homem aquele
O lume no peito dela
A cinza no olhar dele

E o ciume chegou como lume
Queimou, o seu peito a sangrar
Foi como vento que veio
Labareda atear, a fogueira aumentar
Foi a visão infernal
A imagem do mal que no bairro surgiu
Foi o amor que jurou
Que jurou e mentiu
Correm vertigens num grito
Direito ou maldito que há-de perder
Puxa a navalha, canalha
Não há quem te valha
Tu tens de morrer
Há alarido na viela
Que mulher aquela
Que paixão a sua
E cai um corpo sangrando
Nas pedras da rua

Mãos carinhosas, generosas
Que não conhecem o rancor
Mãos que o fado compreendem
e entendem sua dor
Mãos que não mentem
Quando sentem
Outras mãos para acarinhar
Mãos que brigam, que castigam
Mas que sabem perdoar

E pouco a pouco o amor regressou
Como lume queimou
Essas bocas febris
Foi um amor que voltou
E a desgraça trocou
Para ser mais feliz
Foi uma luz renascida
Um sonho, uma vida
De novo a surgir
Foi um amor que voltou
Que voltou a sorrir

Há gargalhadas no ar
E o sol a vibrar
Tem gritos de cor
Há alegria na viela
E em cada janela
Renasce uma flor
Veio o perdão e depois
Felizes os dois
Lá vão lado a lado
E digam lá se pode ou não
Falar-se o fado.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Serei feliz, bem feliz

Nestes dias sem glória,
Vão-se as horas
Ficam o vão
E o silêncio
Que só o choro
Vem romper e preencher.

Venha, poesia!
Enxarque-me desse chorinho bom
Traz-me este tempo áureo
De amor e de samba
Que eu também quero ter muito
Sono
De manhã




Chico Buarque - Samba e amor -

domingo, 20 de setembro de 2009

Oração da resignação




Senhor,
Me ajude a ser tolerante
Que é para eu aceitar a ignorância alheia
Me ajude a ser mansa
Que é para eu perdoar as ofensas gratuitas
Me ajude a ser pacífica
Que é para eu ignorar o caos e a crueldade
Permita também, Senhor, que eu perca a consciência depois
Que é para eu poder conviver comigo mesma
Amém.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O amor da sua vida



“That Kind of Woman” (1959)


O amor da sua vida não vem a cavalo. Quer dizer, às vezes até vem sim, mas só quando cavalo é o meio de transporte popular nas redondezas. Pode esquecer o alazão, o porte de príncipe e todo o resto.
O amor da sua vida geralmente não vem com a cara do Brad Pitt, a inteligência e perspicácia do Lumet, o humor do Veríssimo, nem a poesia do Pessoa. Amor da sua vida que se preze não tem tempo para ser tudo isso. Basta senso de humor para superar as adversidades e vamos que vamos. Dê-se por satisfeita, oras.
O amor da sua vida não abre a porta do restaurante a vida inteira, nem elogia a sua roupa da moda ou seu novo corte de cabelo. Não que o amor da sua vida seja um grosseirão, não. É que detalhes tão pequenos de vocês dois só seriam coisas muito grandes para esquecer se vocês estivessem separados. Se o amor da sua vida reparar que você está diferente, por exemplo, já é motivo para comemoração. Para quê forçar a barra?
O amor da sua vida não discute a relação. O amor da sua vida tem horror em discutir a relação. Aliás, o amor da sua vida não entende porque a relação tem que ser discutida. Discussão é sinônimo de briga. E briga é coisa que amor da sua vida evita. Sabe aquela frase “Faça amor, não faça guerra”? Com certeza foi o amor da vida de alguém quem disse isso na hora de discutir a relação.
O amor da sua vida não é necessariamente bom partido. Aliás, se ele for filiado a algum partido já é bom sinal. Sinal de que o amor da sua vida é engajado em alguma coisa além de futebol, cerveja e churrasco. O que não quer dizer que a sua mãe não vá jogar na sua cara para sempre que o amor da sua vida não era bom partido. Mas é que o amor da vida dela também não era. Com todo o respeito. Mãe que é mãe acha defeito até no amor da sua vida.
O amor da sua vida não vem com garantia, embora apresente vários defeitos de fábrica. Mas afinal de contas, você também não é nenhuma Sophia Loren da década de 60, e é cheia de manias que, convenhamos, o amor da sua vida até finge não ver. É que o amor da sua vida não ficou sonhando com princesa de conto de fada nem com mocinha de novela das seis a vida toda. O grande amor da sua vida sabe muito bem quem você é te ama assim mesmo. Senão, não seria o amor da sua vida.