segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Às sete em ponto



[trecho]
O relógio de parede ainda marcava cinco horas da manhã quando Solange saiu trancando a porta. Desceu rapidamente as escadarias da favela, como se desejasse deixar para trás a visão dos filhos pequenos dormindo amontoados na única cama do barraco e do mais velho dormindo no sofá. A neblina da manhã cobria a cidade de São Sebastião, que, lá embaixo, parecia ainda não ter acordado.
Eram todos homens. Os filhos. Solange repetia sempre este pensamento quando o futuro incerto deles a atormentava como agora. O seu único consolo de mãe desamparada era saber que não menstruariam. Era acreditar que enquanto homens não seriam forçados a sentir vergonha e a quase se desculpar por ver os próprios seios e as cochas desabrocharem dentro do uniforme escolar. Era a certeza de que não sofreriam o assédio vexativo e inevitável que seu corpo negro de mulher sofria desde cedo. Não engravidariam. Não tomariam surras diárias do parceiro. Não seriam seduzidos depois abandonados com seus rebentos.
Seus medos de mãe-de-filhos-negros eram bem outros. Mas ela os desviava um a um ao sair de casa àquela hora. Àquela hora da manhã ela não se permitia pensar em estatísticas.
O ponto de ônibus já estava lotado de trabalhadores, todos calados. Alguns checavam o celular. Outros olhavam impaciente para estrada, preocupados com o atraso de alguma linha. Um cheirinho de sabonete rompia o silêncio. Antes de se aproximar, notou encabulada que ninguém vestia uniforme como ela. Procurava levar o uniforme na bolsa para vestir no emprego todos os dias, mas acordara bem tarde. Cumprimentou alguns conhecidos procurando levantar os ombros. Evitava-os todos, pois sabiam da sua vida e a olhavam ora com pena, ora com reprovação.
Não achou o passe na carteira. O Zé sempre os surrupiava para trocar, o infeliz. Até pedir o trocador para passar debaixo da roleta na volta para casa ela já tinha feito antes por conta disso. Recorreu discretamente ao dinheiro destinado a comprar o pão dos patrões que ela escondia no sutiã enquanto seu ônibus se aproximava.
Sentou-se atrás de um rapaz de mochila e pensou no Samuca, o mais velho. Menino de ouro. Antes de sair para escola dava café para os irmãos, arrumava e levava os três para a vizinha que Solange pagava para tomar conta. Dona Marcela fazia questão que ela pegasse no batente antes do patrão acordar e ficasse até ele voltar do trabalho, para lhe servir o jantar. Dona Marcela não trabalhava fora. Como Solange tinha os meninos, não podia dormir no trabalho, então era preciso chegar e sair na hora para garantir o emprego.
Sentindo-se um pouco enjoada com o balanço do ônibus, saltou um ponto antes da padaria e resolveu ir andando para tomar um ar. O dia finalmente começava a clarear na Zona Sul.
O cheiro do pão fresco que comprara em seguida, e o qual geralmente dava-lhe prazer, naquele momento provocou-lhe ainda mais náusea e foi-lhe difícil chegar à portaria do prédio. Sebastião, o porteiro do turno da manhã, havia acabado de chegar e saudou Solange com a malícia costumeira e que lhe era tão desagradável. Mas até o sujeitinho percebeu que ela não estava se sentindo bem e, fingindo preocupação, perguntou:

__ Tá passando mal, morena? Senta aqui um pouco... – disse, apontando para a cadeira atrás do balcão.

Solange respondeu com um gesto impaciente e subiu em seguida para o apartamento pela entrada de serviço. Eram quase seis e meia e ela precisava passar o café e pôr a mesa. Fez tudo com o perfeccionismo que lhe era particular. Os patrões sentariam-se à mesa e lhe dariam bom dia como de costume pontualmente às sete horas.
Seis e cinquenta e cinco. Solange não suportou mais. Correu em direção ao banheiro dos fundos e vomitou um líquido claro e gosmento. Não havia jantar ou café da manhã em seu estômago. Sentiu-se muito fraca e um pensamento terrível lhe veio à mente, fazendo seu corpo todo estremecer. Lavou o rosto freneticamente na pia como a espantar aquela inconcebível possibilidade. Desesperada, voltou para a copa no momento em que Dr. Conrado e Dona Marcela apontaram na porta.
Pensou nos meninos. Pensou no Samuca e no barraco com uma cama só. Pensou no maldito do Zé. Passou a mão pelo ventre e foi servir o café.
(Hartford, 7 de junho de 2009)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Interrupção/ Interruption

INTERRUPÇÃO
Carla Silva-Muhammad



Depois de rodar por horas sem ter certeza de seu destino, Fernanda foi delicadamente solicitada pelo trocador a se retirar do ônibus, que finalmente chegara ao seu destino final: a rodoviária. Um pouco desnorteada, a moça se levantou com certo esforço e procurou aparentar controle, embora sequer pudesse sentir o chão. Alcançou com bastante dificuldade um orelhão, mas ao procurar um cartão telefônico na bolsa, concluiu que não havia pessoa para quem pudesse ligar naquele momento. Por mais que tentasse, não conseguia concatenar as ideias, tampouco sabia ao certo que sentimento lhe ia na alma. Alma? Pela primeira vez na vida cogitava sua existência e um calafrio lhe percorria a espinha.
Uma dor aguda interrompeu seus pensamentos. Temeu perder os sentidos e acordar num hospital. Esta razão a impulsionou a desistir da ligação impossível e procurar o banheiro. Colheu algumas moedas no bolso da calça jeans para pagar sua entrada e as estendeu à mulher jovem na roleta, que lhe apontou os pedaços de papel higiênico previamente cortados e dobrados em pequenos pedaços dispostos de maneira organizada numa prateleira. Notou que uma outra mulher passava pano molhado no chão, cantarolando uma melodia gospel que vinha de um rádio de pilha perto da pia.
Escolheu ao acaso o pedaço de papel higiênico a que tinha direito e concentrou sua atenção na geografia daquele banheiro de rodoviária. Precisava de privacidade e queria estar o mais afastada possível da porta de entrada. Concentrou suas forças neste intento, mas foi bruscamente interrompida por aquela dor que insistia em vingar-se dela. Fernanda precisou apoiar-se na pia para não cair e este gesto chamou a atenção da mulher que cantava.
"Moça. Você está sangrando."
De fato, ela sangrava muito além daquele sangue, o qual agora pintava de vermelho o chão que a mulher acabara de limpar.
De um salto a mulher segurou Fernanda pelos braços e a arrastou até uma cadeira.
"Você está machucada! Maria, vá chamar alguém, meu Deus. A moça precisa de uma ambulância."
Fernanda sentia uma enorme vontade de não mais existir. Fechou os olhos e desejou profundamente se esvair junto àquela hemorragia. Mas abriu-os novamente e, segurando gentilmente a mão daquela desconhecida, pediu-lhe que não chamasse ninguém. A mulher então deitou seus olhos de mãe naquela jovem que sangrava inexplicavelmente no chão de um banheiro público e sentiu uma compaixão maior que si mesma. Perguntou se ela desejava ligar para alguém vir buscá-la, mas Fernanda recusou. A calça jeans estava agora banhada em sangue, mas o sangramento parecia ter diminuído.
"Raimunda, o que eu faço?" – perguntou Maria, a mulher mais jovem da entrada.
"Fecha a porta e vai correndo pedir uma calça jeans pra Luana da loja de roupa. Diz que depois eu pago!"
Maria obedeceu e Fernanda ouviu quando ela saiu, trancando a porta. Munida de uma toalha surrada e sabonete, Raimunda ajudou a moça a dirigir-se a um dos chuveiros, onde ela, sentada numa cadeira de plástico, deixou-se tomar um rápido e sofrido banho.
Minutos depois Fernanda estava novamente limpa e vestida. Sentada a um canto do banheiro, ao ver aquelas duas mulheres tão bondosas limparem seu sangue espalhado pelo chão, sentiu finalmente que as lágrimas caíam sem cessar e a dor que sentia ia aquém daquela que há pouco ameaçara-lhe a vida.
O banheiro teve as portas reabertas e Fernanda despediu-se de cada uma das duas mulheres com um abraço sem forcas, prometendo voltar para pagar a ajuda recebida.
Tão logo ela se foi, Maria viu que a amiga chorava enquanto reajustava a estação de rádio. Raimunda entendia. Também já havia feito aborto antes.




ENGLISH TRANSLATION

Interruption
by Carla Silva-Muhammad

After circulating for hours, uncertain of her own fate, Fernanda was kindly asked to vacate the otherwise empty bus, which have reached its final destination: Petrópolis’ old bus station. Disoriented, the young lady struggled to stand up, fighting to compose herself while barely feeling the ground. She managed to reach a payphone, but while searching her purse for a phone card, she realized there was no one to call. As much as she tried, she felt unable to formulate cohesive thoughts or to distinct her feelings. Was she a lost soul? Soul? The contemplation of the very existence of the soul made her tremble. A sharp pain interrupted such unprecedented thought.
Fearing waking up in a hospital’s bed, she dismissed the impossible “call idea” in favor of a new mission: finding the restroom. She paid the young female cashier with the few coins she founded in her pocket and was directed to the toilette paper section of the public restroom, where several small pieces of pink toilette paper were pre-disposed in a certain order. She noticed that an older woman was mopping the floor while singing a gospel song along with the radio, which was near the sink.
Randomly choosing the piece of pink toilette paper she was entitled to, she proceeded to study the geography of that bus station restroom. Privacy was crucial at that very moment, so it was important for her to remain as far as possible of the entrance. But while attempting to focus in such project, she was abruptly interrupted once again by the pain and its inflicting doses of revenge. Fernanda had to lean on the sink to avoid heating the floor, and such commotion drew the attention of the lady mopping the floor.
“Miss, you are bleeding!”
In fact, her bleeding surpassed the tangible and profuse flow of blood now coloring the recent cleaned floor.
With a jump, the woman grabbed Fernanda’s arms and dragged her to a chair.
“You are hurt!” - she screamed in shock. “Maria, go call someone! Oh God. She needs an ambulance.”
All Fernanda could feel was a deep desire to no longer be. She closed her eyes, wishing to ooze herself away with the hemorrhage. But instead, she calmly held the hands of the woman and asked her to call no one. The woman laid her mother’s eyes on the young girl copiously and inexplicably bleeding on the floor of a public restroom and all her being emanated compassion. Fernanda refused to have anyone come to get her. Her jeans were now bathed in blood, but somehow the bleeding seemed to have stopped.
“Raimunda, what should I do?”- inquired Maria, the younger cashier.
“Close the doors and run to Luana’s store. Ask her for a new pair of jeans and tell her I will paid for it later.”
Fernanda heard Maria locking the doors after herself.
Armed with a worn towel and soap, Raimunda helped the girl reach one of the showers. Seated in a plastic chair, Fernanda took a quick and painful shower.
Clean and dressed, Fernanda later saw the two strangers cleaning the floor covered with her blood and could no longer contain the tears that nearly suffocated her. Her pain was now of a different kind, beyond the one that had just threatened her so-call life.

The doors of the restroom were reopened. Fernanda said goodbye with a weak hug, promising the women to return and pay her debt. As soon as she left, Maria realized her friend was quietly crying while fixing the radio. Raimunda knew. She herself has had an abortion before.

domingo, 4 de setembro de 2011

A resposta (texto antigo... bateu saudade)





Quando criança, em qualquer momento em que uma dúvida me assaltasse, por mais inibida que fosse, eu procurava questionar os adultos e me satisfazia com a resposta dada. No meu mundinho os adultos tinham as respostas para todas as perguntas. Gente grande sabe tudo. Não aceitava, apenas acreditava. Bons tempos aqueles! Pergunta alguma ficava sem resposta. Perguntou: batata! Tinham a resposta pronta para mim. Por mais chocante que a pergunta soasse.
Aliás, as respostas que mais me marcaram foram aquelas que fizeram meus pais (meus adultos preferidos) suarem a camisa para encontrar. Como à que meu pai me deu certa vez quando, ainda bem pequena, parada ao seu lado num ponto de ônibus em Petrópolis, li uma palavra rabiscada no muro e, como a desconhecia, perguntei bem alto ao meu desconcertado progenitor:
⎯ Papai, o que é bo-ceta?
No que o mui rápido e eficaz pai, observado de perto por todos os curiosos no ponto de  ônibus, respondeu quase num sussurro:
⎯ É um palavrão, minha filha.
O chato é que na adolescência o meu oráculo se desfez. Os adultos perderam a credibilidade para mim. Decidi que não valia a pena sequer perguntar, porque a resposta certamente não seria de cunho científico ou filosófico, mas arbitrário:
⎯ Por que eu não posso tomar banho depois de comer, oras?
⎯ Porque faz mal.
⎯ Faz mal por quê?
⎯ Por que sim!
Mais tarde a faculdade ampliou meus horizontes e eu descobri um novo oráculo: a biblioteca da Faculdade de Letras da UFRJ. Ah… filosofia, letras e arte! Respostas para perguntas as quais eu sequer havia elaborado. Um mundo novo se abriu: subitamente as questões eram tão importantes quanto suas respostas (estas últimas, aliás, não precisavam mais ter caráter científico, bastasse fossem opções do que poderia vir a ser uma conclusão aberta à discussão). Um deleite!
Até que um dia eu me descobri adulta e sem tempo para perguntas ou coragem para encontrar as respostas. Responsabilidades, contas para pagar, e uma montanha de questões a resolver. Muitas vezes era preciso ignorar a pergunta que brotava. Quem lá tinha tempo para isso? A esquerda que indagasse os porquês ao governo ora essa!
Foi quando eu descobri meu terceiro oráculo: a banda larga! Agora sim, bastava digitar algumas palavras que o Google vinha imediatamente com centenas e milhares de lugares e respostas independentemente do cunho da questão. Tanta informação! Da noite para o dia eu viarava mecânica, doutora e astronauta. Não necessariamente nessa ordem. As respostas eram tantas que me embriagavam. Claro que dava um trabalho danado coletá-las, dividi-las por categorias e decidir qual delas era a mais verídica e/ou satisfatória. Afinal, era preciso, como qualquer outra pesquisa, colecionar e questionar as respostas (de acordo com o grau de credibilidade da fonte). Um trabalho quase científico.
Mas veja bem, meu caro amigo, que coisa doida é a vida. Não é que de lá para cá eu virei mãe (gente grande) e, sem aviso prévio, fui nomeada o oráculo de alguém? Alguém de uns três anos de idade. Ah! Quantas perguntas a serem respondidas. Quantas respostas a serem “re-perguntadas”. Sim, porque essa minha filhinha e suas perguntas incansáveis não se satisfaz sempre com minhas singelas respostas:
⎯ A câmera não vai funcionar.
⎯ Why?
⎯ Porque está sem bateria.
⎯ Why?
⎯ Porque mamãe esqueceu de carregar.
⎯ Why?
⎯ Porque eu tinha muitas coisas para fazer...
⎯ Why?
E assim vai… (agora eu sei porque algumas respostas devem ser simplesmente arbitrárias, caramba!)
Entretanto o mais interessante é perceber que a menininha ensaia suas próprias respostas. Um belo dia, percebendo que a lua não estava mais cheia, ela mais que depressa apontou:
⎯ Look, mommy! the moon is broken!
E quando eu já ensaiava uma resposta para a pergunta que eu achava que se seguiria, ela arrematou com a explicação que ela traz na ponta da língua sempre que se encontra em apuros:
⎯ It wasn't me! It was Tainá (a irmazinha de 1 aninho que dormia no seu assento de bebê)!!!
Eu não encontraria melhor resposta.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Te perdoo

Não vês que te perdoo?
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Tu vês o dia nublado
E tua vista se acinzenta
Teu café amarga
As horas do teu dia se arrastam
Até que teu vazio se torne mais presente
 insuportável
E te arrebentes o peito
Rindo-se da tua mortalidade tola
Desconheces o homem que te tornastes
Maldizes teus conceitos
E admites que perdestes a aposta da vida
Sentes que já não podes mais
Mas no fim do dia voltas para casa
Assistes o jornal
te contentas com o sono
e te permites apagar por algumas horas
talvez dias
tua realização, até que ela volte a te assombrar
num outro dia
em que tu tornarás a ver céu cinzento
no mesmo céu em que olho
e só vejo chuva
ardo de desejo
encharco-me em mortalidade
tola e solta,
até transbordar de prazer.
Conheço cada uma das mulheres que me tornei
Rio zombeteira das minhas certezas efêmeras
E percebo que posso mais
E que o concreto não me contenta.
No fim do dia volto para casa
Assisto o jornal
e deixo o sono me levar
certa de que continuo a me encontrar
e me envolver e enlouquecer
sem ti.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Sem Saber

 
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Murros na porta do apartamento 301 ecoam nos corredores do  pequeno prédio de fachada de azulejos do Catete. Fernando sabe que Paula, sua irmã mais nova, dorme à tarde ao voltar do pré-vestibular, mas aquilo já é exagero. Toca a campainha freneticamente em vão. Torna a ligar para o celular da moça. Nada. E ele sem chave! Resolve descer e perguntar ao zelador se viu a Paulinha sair.

Dentro do banheiro, Paula olha para o corpinho imóvel caído ao lado da pia. Não escuta as batidas na porta, não escuta seu próprio coração. Não escuta o choro do bebê.
Catatônica, não sabe precisar o que se passa. Sequer consegue distinguir fantasia de realidade. Não sabe se delira. Não entende nem raciocina. Apenas fixa o olhar no corpinho.

Fernando sobe as escadas certo agora de que Paula ainda está dormindo. Esmurra a porta chamando por ela. O barulho atrai Dona Carmem, a fofoqueira do prédio. Absolutamente confiante de que se trata de alguma briga entre casais, Dona Carmem berra lá da porta do seu apartamento no segundo andar:

-       Olha esta indecência aí!!

Fernando se aborrece e desce as escadas mais uma vez. Bate à porta da fofoqueira para tirar satisfações. Envergonhada  com a súbita reação do rapaz, ela pede desculpas e até se prontifica a ajudar, interessada no desfecho do enredo. “Deve é estar com algum namoradinho, a safadinha”, pensa.

Paula entende que o corpinho não se mexe. Não sabe se o bebê está morto ou vivo. A cabeça de Paula gira. É preciso estar grávida para dar a luz! Ainda sentada, enfim percebe-se sozinha e procura mover as pernas e os braços, mas não sabe que atitude tomar. Sente muito medo. Pavor agudo. O peito arfa. Lembra menstruar. Lembra das cólicas e desconforto nos últimos meses. Confusa, passa a mão sobre o ventre. Num clarão, vê o cordão umbilical. Aquele é seu bebê? Pega o corpinho nos braços sem pensar. O choro finalmente ecoa no banheiro. Está vivo.

Fernando ouve as propostas dos vários vizinhos no corredor no terceiro andar. O zelador sugere chamar um chaveiro. O vizinho do 303 recomenda que pulem da varanda do seu apartamento para a varanda de Fernando. O marido de Dona Carmem só observa. Fernando começa a pensar no pior. Esquece que precisa ir para o trabalho na Tijuca e pensa em Paulinha. Lembra que já há algum tempo ela reclama de dores no abdômen e nas costas. Arrepende-se de toda aquela confusão e decide despachar aquele povo todo dizendo que os pais voltam em breve e que tudo está sobre controle.

Decepcionado e sem nada entender, o grupo se afasta aos poucos, cada qual para seu apartamento. Frases malcriadas entre os dentes são deixadas no corredor agora vazio. Cansado e atrasado, Fernando balança os ombros. Vai ver que ela nem veio para casa. O jeito é esperar que os pais descubram o paradeiro da moça. Passa uma mensagem de texto para o pai pelo celular e vai embora trabalhar.

Paula embrulha o bebê numa toalha limpa e procura instintivamente  a tesoura e o álcool no armário debaixo da pia. Depois de cortar o cordão que prova para si mesma que aquele é mesmo seu bebê, resolve investigar e vê que ele não sangra. Ele? Não. Ela. É uma menina. Chocada com sua própria iniciativa, Paula amamenta a filha que ela ignorava conceber. Não sabe precisar que sentimento – se algum – experimenta. Abre a porta do banheiro e vai com a menina para o seu quarto. O bebê dorme tranquilamente. Paula põe a menina em sua cama com cuidado e deita-se a seu lado. Torna a olhar o rostinho daquele recém-nascido e sente certa ternura por ela. Como é possível ser mãe sem saber? Não sabe. Só sabe que um enorme cansaço se abate sobre seu corpo e adormece, já sem medo algum, ao lado da filhinha.



sábado, 13 de novembro de 2010

"O sertanejo é, antes de tudo, um forte!"

 Preconceito é burrice. Não tenho a menor paciência. Se vocês ainda não tiveram a oportunidade de ler este ótimo texto de José Barbosa Júnior sobre a "pérola" dita pela estudante paulistana, Mayara Petruso, deleitem-se!




                                                     imagem do retirada do blog: poemas de mil compassos
Calem a boca, Nordestinos!
Por José Barbosa Junior 

As eleições de 2010 trouxeram à tona, entre muitas outras coisas, o que há de pior no Brasil em relação aos preconceitos. Sejam eles religiosos, partidários, regionais, foram lançados à luz de maneira violenta, sádica e contraditória.

Já escrevi sobre os preconceitos religiosos em outros textos e a cada dia me envergonho mais do povo que se diz evangélico (do qual faço parte) e dos pilantras profissionais de púlpito, como Silas Malafaia, Renê Terra Nova e outros, que se venderam de forma absurda aos seus candidatos. A luta pelo poder ainda é a maior no meio do baixo-evangelicismo brasileiro.
Mas o que me motivou a escrever este texto foi a celeuma causada na internet, que extrapolou a rede mundial de computadores, pelas declarações da paulista, estudante de Direito, Mayara Petruso, alavancada por uma declaração no twitter: “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!”.
Infelizmente, Mayara não foi a única. Vários outros “brasileiros” também passaram a agredir os nordestinos, revoltados com o resultado final das eleições, que elegeu a primeira mulher presidentE ou presidentA (sim, fui corrigido por muitos e convencido pelos “amigos” Houaiss e Aurélio) do nosso país.
E fiquei a pensar nas verdades ditas por estes jovens, tão emocionados em suas declarações contra os nordestinos. Eles têm razão!
Os nordestinos devem ficar quietos! Cale a boca, povo do Nordeste!
Que coisas boas vocês têm pra oferecer ao resto do país?
Ou vocês pensam que são os bons só porque deram à literatura brasileira nomes como o do alagoano Graciliano Ramos, dos paraibanos José Lins do Rego e Ariano Suassuna, dos pernambucanos João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, ou então dos cearenses José de Alencar e a maravilhosa Rachel de Queiroz?
Só porque o Maranhão nos deu Gonçalves Dias, Aluisio Azevedo, Arthur Azevedo, Ferreira Gullar, José Louzeiro e Josué Montello, e o Ceará nos presenteou com José de Alencar e Patativa do Assaré e a Bahia em seus encantos nos deu como herança Jorge Amado, vocês pensam que podem tudo?
Isso sem falar no humor brasileiro, de quem sugamos de vocês os talentos do genial  Chico Anysio, do eterno trapalhão Renato Aragão, de Tom Cavalcante e até mesmo do palhaço Tiririca, que foi eleito o deputado federal mais votado pelos… pasmem… PAULISTAS!!!

E já que está na moda o cinema brasileiro, ainda poderia falar de atores como os cearenses José Wilker, Luiza Tomé, Milton Moraes e Emiliano Queiróz, o inesquecível Dirceu Borboleta, ou ainda do paraibano José Dumont ou de Marco Nanini, pernambucano.

Ah! E ainda os baianos Lázaro Ramos e Wagner Moura, que será eternizado pelo “carioca” Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, 1 e 2.
Música? Não, vocês nordestinos não poderiam ter coisa boa a nos oferecer, povo analfabeto e sem cultura…
Ou pensam que teremos que aceitar vocês por causa da aterradora simplicidade e majestade de Luiz Gonzaga, o rei do baião? Ou das lindas canções de Nando Cordel e dos seus conterrâneos pernambucanos Alceu Valença, Dominguinhos, Geraldo Azevedo e Lenine? Isso sem falar nos paraibanos Zé e Elba Ramalho e do cearense Fagner…
E Não poderia deixar de lembrar também da genial família Caymmi e suas melofias doces e baianas a embalar dias e noites repletas de poesia…
Ah! Nordestinos…

Além de tudo isso, vocês ainda resistiram à escravatura. E foi daí que nasceu o mais famoso quilombo, símbolo da resistência dos negros à força opressora do branco que sabe o que é melhor para o nosso país. Por que vocês foram nos dar Zumbi dos Palmares? Só para marcar mais um ponto na sofrida e linda história do seu povo?
Um conselho, pobres nordestinos. Vocês deveriam aprender conosco, povo civilizado do sul e sudeste do Brasil. Nós, sim, temos coisas boas a lhes ensinar.
Por que não aprendem conosco os batidões do funk carioca? Deveriam aprender e ver as suas meninas dançarem até o chão, sendo carinhosamente chamadas de “cachorras”. Além disso, deveriam aprender também muito da poesia estética e musical de Tati Quebra-Barraco, Latino e Kelly Key. Sim, porque melhor que a asa branca bater asas e voar, é ter festa no apê e rolar bundalelê!
Por que não aprendem do pagode gostoso de Netinho de Paula? E ainda poderiam levar suas meninas para “um dia de princesa” (se não apanharem no caminho)! Ou então o rock melódico e poético de Supla! Vocês adorariam!!!
Mas se não quiserem, podemos pedir ao pessoal aqui do lado, do Mato Grosso do Sul, que lhes exporte o sertanejo universitário… coisa da melhor qualidade!
Ah! E sem falar numa coisa que vocês tem que aprender conosco, povo civilizado, branco e intelectualizado: explorar bem o trabalho infantil! Vocês não sabem, mas na verdade não está em jogo se é ou não trabalho infantil (isso pouco vale pra justiça), o que importa mesmo é o QUANTO esse trabalho infantil vai render. Ou vocês não perceberam ainda que suas crianças não podem trabalhar nas plantações, nas roças, etc. porque isso as afasta da escola e é um trabalho horroroso e sujo, mas na verdade, é porque ganha pouco. Bom mesmo é a menina deixar de estudar pra ser modelo e sustentar os pais, ou ser atriz mirim ou cantora e ter a sua vida totalmente modificada, mesmo que não tenha estrutura psicológica pra isso… mas o que importa mesmo é que vão encher o bolso e nunca precisarão de Bolsa-família, daí, é fácil criticar quem precisa!
Minha mensagem então é essa: – Calem a boca, nordestinos!
Calem a boca, porque vocês não precisam se rebaixar e tentar responder a tantos absurdos de gente que não entende o que é, mesmo sendo abandonado por tantos anos pelo próprio país, vocês tirarem tanta beleza e poesia das mãos calejadas e das peles ressecadas de sol a sol.
Calem a boca, e deixem quem não tem nada pra dizer jogar suas palavras ao vento. Não deixem que isso os tire de sua posição majestosa na construção desse povo maravilhoso, de tantas cores, sotaques, religiões e gentes.
Calem a boca, porque a história desse país responderá por si mesma a importância e a contribuição que vocês nos legaram, seja na literatura, na música, nas artes cênicas ou em quaisquer situações em que a força do seu povo falou mais alto e fez valer a máxima do escritor: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte!”
Que o Deus de todos os povos, raças, tribos e nações, os abençoe, queridos irmãos nordestinos!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Sem mais reticências


 ...


Andei muito tempo ausente deste blog. A falta de palavras me fez pensar.
Cheguei à conclusão de que não preciso suprimir acentos (todos antes muito necessários, por sinal), tão pouco aglutinar palavras que antes eram ligadas por hifens (tão simpáticos) etc.
Ah, sim. Quase me esqueço. Sou professora de português. Detalhes, detalhes…
Ora vejam bem: o ano já chega ao fim. Fatos importantíssimos aconteceram no mundo. O Brasil até elegeu sua primeira mulher presidente. E nós aqui. Preocupados com a falta que o trema faz. 
Pontuação, sim. É de pontuação que precisamos. Que trabalho que dá pontuar a vida da gente! Está decidido: em 2011 eu vou organizar e pontuar corretamente.
Chega de usar tantas reticências. Sejamos mais firmes e menos hesitantes. Pontos finais são imprescindíveis. Boas resoluções precisam de seus pontos finais. Se for o caso de mudar de idéia depois, mude com firmeza, oras!
Ah! Pontos de exclamação! Exclamar é viver! Usemos e abusemos do nosso direito de exclamar! Reinvidiquemos mais com nossa exclamações! Sejam elas provenientes de admiração, fúria, ultraje ou animação!
Aproveitemos também para questionar mais. Os pontos de interrogação estão aí para isso, não é? Deve-se usar acento agudo ou circunflexo em bebe? Esta palavra tem origem francesa? Por que ainda não consigo assimilar as regras do já-nem-tão-novo-assim (uso hifem ou não? hifem tem acento?) acordo ortográfico? Oras, perguntar não é importante? O questionamento não faz parte do temperamento humano? As grandes descobertas não nasceram dos cérebros indagadores?
E já que 2011 será, sem dúvida, um ano de muitas vitórias para o povo brasileiro, façamos uso generoso das vírgulas, enumerando as alegrias e conquistas! Vamos, ao lado da presidente, cuidar da saúde, educação, segurança, empregos, meio ambiente etc!
Pontue, por um futuro melhor!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Caro Voltaire

L'homme est libre au moment qu'il veut l'être.

Infelizmente as trevas nunca nos deixaram. Há intolerância em toda a partes, sob as mais variadas formas e disfarces.
Preconceito, superstição, abuso e tirania jamais deixaram de existir. Talvez por isso o pensamento e a ação ainda não andam juntos, e ninguém parece se interessar verdadeiramente em construir uma sociedade melhor – dá muito trabalho.
O homem que é livre para pensar prefere abdicar deste direito. O nosso progresso é lento e penoso, caro Voltaire.
Tudo o que é tão óbvio é o que menos se enxerga. A dúvida ainda é blasfêmia; a razão uma ferramenta enferrujada.
Só nos resta, além das grades as quais criamos, a sátira, caro Voltaire. Não estamos prontos para sermos livres.








sexta-feira, 23 de abril de 2010

Falta


Humildade. Palavra tão bonita mas porcamente interpretada e tão pouco difundida .
Dizer o que quer, sem medir ou filtrar as palavras e o conteúdo da mensagem, que fatalmente prejudicará direta ou indiretamente outrem ou causará macula e desconforto não é franqueza, é falta de humildade.
Bater no peito e encher a boca para ampliar, divulgar ou enfeitar virtudes, vantagens e até talentos naturais ou adquiridos não é orgulho, é simplesmente falta de humildade.
E esta falta vai além do faltar que remete ao não-ter ou ao não-existir. Esta falta implica em erro mesmo. Em falta grave. Gravíssima.
Esta falta está em quase todos os ambientes em que convivo e me toma o ar. Ninguém faz questão de ser humilde. Humildade é sinônimo de fraqueza, de ignorância, de falta de educação. “Fulano é humilde” significa ele não tem posses materiais ou não tem estudo.  Quão bom seria dizer “Fulano é humilde” porque não se vangloria a torto e a direito, não exibe seus bens materiais ou não, pensa e escolhe as palavras para não ferir.
Qual o quê. Humildade é considerada coisa de gente ignorante, gente que crê em alguma religião dominante e que não faz lutar pelos seus direitos.  Nem  de longe humildade é virtude. O certo mesmo é não levar desaforo para casa. É provar que é mais.
Falta.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Terra

Embora Caetano tenha visões muito distorcidas e opiniões bastante incoerentes, confesso que gosto de muitas de suas letras, e uso os versos de uma delas, a qual causou em mim, na época ( e ainda hoje causa), um grande encantamento diante da beleza na descrição desta musa, Terra, mãe tão maltrada.

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...


Composição: Caetano Veloso
Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim coberta de nuvens...
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...
Ninguém supõe a morena
Dentro da estrela azulada
Na vertigem do cinema
Mando um abraço prá ti
Pequenina como se eu fosse
O saudoso poeta
E fosses a Paraíba...
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...
Eu estou apaixonado
Por uma menina terra
Signo de elemento terra
Do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza
Terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia...
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...
Eu sou um leão de fogo
Sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente
E de nada valeria
Acontecer de eu ser gente
E gente é outra alegria
Diferente das estrelas...
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...
De onde nem tempo, nem espaço
Que a força mãe dê coragem
Prá gente te dar carinho
Durante toda a viagem
Que realizas do nada
Através do qual carregas
O nome da tua carne...
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...
Na sacada dos sobrados
Da velha são Salvador
Há lembranças de donzelas
Do tempo do Imperador
Tudo, tudo na Bahia
Faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito...
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Terra!

terça-feira, 30 de março de 2010

Promessas de mãe

ESTE TEXTO FOI CONCEBIDO POR UMA PESSOA LINDA E TALENTOSA, A ANA COUTINHO, E EU NAO RESISTI!!! DIVIDO-O CONTIGO:


Promessas de mãe
Eu prometo querida, que te olharei com atenção.
Eu prometo que buscarei te conhecer. Tudo. Tuas luzes e tuas sombras. Ainda que me ofusque os olhos, ainda que não seja o que eu sonhei, buscarei sempre te conhecer.
Eu prometo desenhar com você, ler para você, contar estórias e te por pra dormir, mesmo depois de um dia cansativo.
Eu prometo ouvir você, te segurar e te soltar. Deus me ajude a saber quando é a o hora do que.
Eu prometo não esquecer de te elogiar, não esquecer de te beijar, não esquecer de te fazer côcegas e de rir junto de você, mesmo que a rotina, essa raposa, me martele as obrigações e o cansaço do dia a dia.
Eu prometo te respeitar, te deixar livre mesmo querendo te aprisionar a mim e, quando você tiver seu coração partido em mil pedaços, eu prometo não diminuir a sua dor, por mais que ela me pareça fútil e fora de hora. Eu prometo respeitar seus sentimentos, suas dúvidas e suas certezas, ainda que elas me sejam infantis e tolas. Se são suas, terão o meu olhar e o meu amor.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A resposta





Quando criança, em qualquer momento em que uma dúvida me assaltasse, por mais inibida que fosse, eu procurava questionar os adultos e me satisfazia com a resposta dada. No meu mundinho os adultos tinham as respostas para todas as perguntas. Gente grande sabe tudo. Não aceitava, apenas acreditava. Bons tempos aqueles! Pergunta alguma ficava sem resposta. Perguntou: batata! Tinham a resposta pronta para mim. Por mais chocante que a pergunta soasse.
Aliás, as respostas que mais me marcaram foram aquelas que fizeram meus pais (meus adultos preferidos) suarem a camisa para encontrar. Como à que meu pai me deu certa vez quando, ainda bem pequena, parada ao seu lado num ponto de ônibus em Petrópolis, li uma palavra rabiscada no muro e, como a desconhecia, perguntei bem alto ao meu desconcertado progenitor:
⎯ Papai, o que é bo-ceta?
No que o mui rápido e eficaz pai, observado de perto por todos os curiosos no ponto de  ônibus, respondeu quase num sussurro:
⎯ É um palavrão, minha filha.
O chato é que na adolescência o meu oráculo se desfez. Os adultos perderam a credibilidade para mim. Decidi que não valia a pena sequer perguntar, porque a resposta certamente não seria de cunho científico ou filosófico, mas arbitrário:
⎯ Por que eu não posso tomar banho depois de comer, oras?
⎯ Porque faz mal.
⎯ Faz mal por quê?
⎯ Por que sim!
Mais tarde a faculdade ampliou meus horizontes e eu descobri um novo oráculo: a biblioteca da Faculdade de Letras da UFRJ. Ah… filosofia, letras e arte! Respostas para perguntas as quais eu sequer havia elaborado. Um mundo novo se abriu: subitamente as questões eram tão importantes quanto suas respostas (estas últimas, aliás, não precisavam mais ter caráter científico, bastasse fossem opções do que poderia vir a ser uma conclusão aberta à discussão). Um deleite!
Até que um dia eu me descobri adulta e sem tempo para perguntas ou coragem para encontrar as respostas. Responsabilidades, contas para pagar, e uma montanha de questões a resolver. Muitas vezes era preciso ignorar a pergunta que brotava. Quem lá tinha tempo para isso? A esquerda que indagasse os porquês ao governo ora essa!
Foi quando eu descobri meu terceiro oráculo: a banda larga! Agora sim, bastava digitar algumas palavras que o Google vinha imediatamente com centenas e milhares de lugares e respostas independentemente do cunho da questão. Tanta informação! Da noite para o dia eu viarava mecânica, doutora e astronauta. Não necessariamente nessa ordem. As respostas eram tantas que me embriagavam. Claro que dava um trabalho danado coleta-las, dividi-las por categorias e decidir qual delas era a mais verídica e/ou satisfatória. Afinal, era preciso, como qualquer outra pesquisa, colecionar e questionar as respostas (de acordo com o grau de credibilidade da fonte). Um trabalho quase científico.
Mas veja bem, meu caro amigo, que coisa doida é a vida. Não é que de lá para cá eu virei mãe (gente grande) e, sem aviso prévio, fui nomeada o oráculo de alguém? Alguém de uns três anos de idade. Ah! Quantas perguntas a serem respondidas. Quantas respostas a serem “re-perguntadas”. Sim, porque essa minha filhinha e suas perguntas incansáveis não se satisfaz sempre com minhas singelas respostas:
⎯ A camera não vai funcionar.
⎯ Why?
⎯ Porque está sem bateria.
⎯ Why?
⎯ Porque mamae esqueceu de carregar.
⎯ Why?
⎯ Porque eu tinha muitas coisas para fazer
⎯ Why?
E assim vai… (agora eu sei porque algumas respostas devem ser simplesmente arbitrárias, caramba!)
Entretanto o mais interessante é perceber que a menininha ensaia suas próprias respostas. Um belo dia, percebendo que a lua não estava mais cheia, ela mais que depressa apontou:
⎯ Olha a lua mamae! Está quebrada!
E quando eu já ensaiava uma resposta para a pergunta que eu achava que se seguiria, ela arrematou com a explicação que ela traz na ponta da língua sempre que se encontra em apuros:
⎯ Foi a minha irmazinha quem quebrou!
Eu não encontraria melhor resposta.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

decisões...

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Le Petit Prince,1943 ( Saint-Exupéry)


Confesso que a minha lista de decisões para a nova década surpreendeu a mim mesma. Engraçado como as prioridades mudam com a idade. A certa altura da vida certas preocupações que outrora assemelhavam-se ao próprio armagedom desaparecem feito névoa diante dos problemas concretos e, às vezes, até irremediáveis. O interessante é que o pânico total de antes dá lugar a uma calma quase absurda diante da descoberta dos novos (e bem mais reais) obstáculos e dificuldades do presente, os quais tornam-se parte da vida e, ouso dizer, passam a ser - quase - necessários.

Limito-me a dizer que uma de minhas (poucas) resoluções é a de não desistir do ser humano. Romantismo? Não. Simplesmente cansei de escutar dos outros que “as pessoas cansam”. Não nego. Cansam mesmo. Mas desistir não envolve desafio algum. Que mérito pode haver nesta atitude que em nada resolve o problema, apenas o agrava?

Que venham os problemas e as pessoas. Na minha lista não entram mais futilidades.


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Para ilustrar a minha luta armada (virtual) contra o cansaço dos outros ante a própria espécie, segue o link para um texto antigo aqui deste humilde blog chamado O Reencontro, que trata dos desconhecidos que nos tocam o coração nas esquinas da vida. Um feliz 2010 para todos nós.



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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Língua e Herança



Capa: 
 A Construção da Ideia da Lusofonia em Portugal
Não chóro por nada que a vida traga ou leve. Há porém paginas de prosa me teem feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noute em que, ainda creança, li pela primeira vez numa selecta, o passo celebre de Vieira sobre o Rei Salomão, "Fabricou Salomão um palacio..." E fui lendo, até ao fim, tremulo, confuso; depois rompi em lagrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquelle movimento hieratico da nossa clara lingua majestosa, aquelle exprimir das idéas nas palavras inevitaveis, correr de agua porque ha declive, aquelle assombro vocalico em que os sons são cores ideaes - tudo isso me toldou de instincto como uma grande emoção politica. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda chóro. Não é - não - a saudade da infancia, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção d'aquelle momento, a magua de não poder já ler pela primeira vez aquella grande certeza symphonica.
Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. - Fernando Pessoa





Quando minha filhinha mais velha completou  1 ano e meio sem pronunciar uma palavra sequer (nem mesmo mamãe), o pediatra começou a se preocupar. Organizou e requisitou uma bateria de testes para ter certeza de que a menininha não tinha nenhum problema de audição, fala etc. Feitos os testes (embora todos tenham apresentado resultado negativo),  chegou-se à conclusão de que ela deveria ser acompanhada por determinados profissionais, tais quais uma fonoaudióloga que a visitaria uma vez por semana, só para garantir…
O meu coração de mãe de primeira viagem culpou-se o tanto quanto pode ante aquela situação imprevista. Multipliquei todos os esforços e reavivei a professorinha que havia em mim, tirando todos os truques da cartola, entre livros, músicas, brincadeiras, abecedário e mais. Grávida, então, da segunda filhinha, achei que se fazia necessário uma solução conveniente, prática e rápida, pois a vinda do novo bebê poderia complicar ainda mais aquele cenário. Tomei uma decisão muito séria, embora desejando que fosse temporária, e que considero qual sacrifício dos mais penosos em nome do desejo de ajudar no seu progresso: deixei de falar em português com a filhinha, passando a usar apenas a língua inglesa, a mesma usada pelos “profissionais” que trabalhavam com ela semanalmente; a mesma que ela ouve diariamente no país em que ela nasceu, mora, interage e cresce.
Aos olhos de uma pessoa comum, este detalhe passa despercebido. Entretanto, sinto como se a principal (e, no momento, única) herança cultural que eu poderia diretamente oferecer às minhas menininhas lhes fosse cruelmente negada.  Não bastasse a falta de convívio com os avós maternos, família e amigos brasileiros, os quais em suas cabecinhas infantis fazem todos parte de um mundo quase abstrato, quase lúdico, a elas apresentado em forma de algumas poucas fotografias e, eventualmente, vozes ao telefone; não bastasse ainda a escassez de materiais, brinquedos, livros bilíngues aos quais ambas tivessem acesso, até mesmo o diálogo em português é inexistente em suas tão jovens vidas.
Sim. Sem dúvida terei tempo de corrigir tal “detalhe”. Mas este não é o ponto em questão.
Amo meu país. Amo minha língua. Fiz dela um meio de ganhar a vida. Trato-a com carinho, respeito e dedicação. Aprendi que minha Pátria é minha língua e vice-versa e por isso trago ambos no peito e na mente. Dela me utilizo desde que me reconheci enquanto pessoa para expressar meus sentimentos, idéias, sonhos, projetos. Sofro ao vê-la maltratada, regojizo-me ante sua beleza e magnitude. Com ela sonho, revejo, reconstruo. Canto as canções do meu povo. Recito os poemas mais belos. Maldigo as notícias mais revoltantes. Grito o nome do meu time. Balbucio palavras de amor. Xingo. Gaguejo. Construo textos. Fabrico testes. Repito as frases ditas. Descrevo as paisagens da minha infância e as passagens da minha vida. Falo. Escrevo.

Ela é tudo o que verdadeiramente possuo. É com ela que me reconheço. Ainda que fosse poliglota, viajasse aos quatro cantos do planeta e jamais voltasse a ouvir minha língua mãe, ela estaria gravada no meu íntimo como parte do ser que sou, qual traço de DNA, carregando com ela minha cultura, meus antepassados, meu país e sua história.