Às sete em ponto

domingo, 7 de junho de 2009



O relógio de parede ainda marcava cinco horas da manhã quando Solange saiu trancando a porta. Desceu rapidamente as escadarias da favela, como se desejasse deixar para trás a visão dos quatro filhos pequenos dormindo amontoados na única cama do barraco. A neblina da manhã cobria a cidade de São Sebastião, que, lá embaixo, parecia ainda não ter acordado.
Eram todos homens. Os filhos. Solange repetia sempre este pensamento quando o futuro incerto deles a atormentava como agora. Consolava-a saber que não menstruariam, tampouco seriam violentados ou engravidariam de algum vagabundo. Certamente não tomariam surras diárias de alguém bêbado que sequer dormia em casa mas exigia comida, roupa lavada e dinheiro para gastar sabe Deus lá com o quê e com quem.
O ponto de ônibus, apesar da hora, já estava lotado de trabalhadores, todos cheirando a sabonete e a maioria de uniforme, como ela. Provavelmente estariam indo para a Zona Sul, trabalhar para alguma madame, doutor ou coisa parecida, pensava. Cumprimentou alguns conhecidos com certa vergonha. Evitava-os todos, pois sabiam da sua vida e a olhavam ora com pena, ora com reprovação.
Procurou o vale-transporte na carteira em vão. O Zé sempre surrupiava seus vales para trocar, o infeliz. Por conta disso perdeu a conta das vezes que precisara engolir a dignidade e pedir o trocador para passar debaixo da roleta. Recorreu discretamente ao dinheiro que ela escondia no sutiã (destinado a comprar o pão dos patrões) enquanto seu ônibus se aproximava.
Sentou-se atrás de um rapaz de mochila e pensou no Samuca, seu filho mais velho. Menino de ouro. Antes de sair para escola, dava café com pão para os irmãos, penteava, escovava e levava os três para a vizinha lavadeira que, em troca de ficar com os meninos até que Samuca voltasse, fazia o rapazinho passar e às vezes até entregar as roupas que ela lavava para fora. Solange não gostava muito dessa história, não, mas não tinha outro jeito. Sua patroa fazia questão que ela pegasse no batente antes do patrão acordar até tarde da noite, quando ele voltava do trabalho e Solange lhe servia o jantar. Como ela tinha os meninos, não podia dormir no trabalho, mas precisava chegar e sair na hora para garantir o emprego.
Sentindo-se ainda um pouco enjoada com o balanço do ônibus, saltou um ponto antes da padaria e resolveu ir andando para tomar um ar. O dia finalmente começava a clarear. Mas o cheiro do pão fresco que agora levava, e o qual geralmente dava-lhe prazer, naquele momento provocou-lhe ainda mais náusea e foi-lhe difícil chegar à portaria do prédio. Sebastião, o porteiro do turno da manhã, havia acabado de chegar e saudou Solange com a malícia costumeira e que lhe era tão desagradável. Mas até o sujeitinho percebeu que ela não estava se sentindo bem e, fingindo preocupação, perguntou:
__ Tá passando mal, morena? Senta aqui um pouco – disse, apontando para a cadeira atrás do balcão.
Morena era como geralmente os mal-intencionados, ignorantes ou racistas camuflados chamavam Solange, negra bonita, ainda muito jovem e de corpo bem feito.
Solange respondeu com um gesto impaciente e subiu em seguida para o apartamento dos patrões. Eram quase seis e meia e ela precisava passar o café e pôr a mesa. Fez tudo com o perfeccionismo que lhe era particular. Os patrões sentariam-se à mesa e lhe dariam bom dia como de costume pontualmente às sete horas.
Seis e cinquenta e cinco. Solange não suportou mais. Correu em direção ao banheiro dos fundos e vomitou um líquido claro e gosmento. Não havia jantar ou café da manhã em seu estômago. Sentiu-se muito fraca e um pensamento terrível lhe veio à mente, fazendo seu corpo todo estremecer. Lavou o rosto freneticamente na pia como a espantar aquela inconcebível possibilidade. Desesperada, voltou para a copa no momento em que doutor Conrado e dona Marcela apontaram na porta.
Pensou nos meninos. Pensou no Samuca e no barraco com uma cama só. Pensou no maldito do Zé. Passou a mão pelo ventre e foi servir o café dos patrões.

6 sentimento(s) retratado(s):

Nina disse...

Mas menina, como escreve bem! Fiquei vendo a Solange na minha frente. Os meninos domindo.O medo dela e a raiva contida.

Carla, vc escreve bem, mt bem, parece cronista.

Beijão querida, ué, agora que eu notei que vc nao é mais crianca... tem uma cara de menininha incrível! Só fui notar isso qd li teu comentário lá no Crônicas.
Passa a receita?
:)

Abobrinhas Psicodélicas disse...

Carlinha,

Suas crônicas sempre calam fundo. Beijos e saudades.

Romanzeira disse...

Ai, Carla! Muito bonito esse conto e triste pra caramba! Tem um monte de mulheres que vivem assim...
So que eu imaginei a Solange, no início, como uma senhora. rs.

Romanzeira disse...

Ah, que bom que vc gostou do meu conto.
Eu não mandei por falta de tempo e de alguem para revisar. Nunca vejo meus proprios erros de concordância e gramática.

Tem um outro que é meu xodó, adoro aquele conto: Iluminação.

bj e obrigada.

C. S. Muhammad disse...

Nina,
Menina é você... menina feliz e doce. Obrigada pelas palavras gentis.

Adriano,
Obrigada pela sua visita. Beijos

Viviane,
Gostei muito dos seus contos. Você é dotada de talentos, hein? Beijos

Juliêta Barbosa disse...

Carla,

Esse conto reflete com mestria a dor pungente que sente a maioria das mulheres, abandonadas da sorte, e vítimas de uma sociedade machista. Seus textos refletem a sua alma... Como ela é bonita!